UMA RAZÃO PARA VIVER
CAPÍTULO UM
Clara já estava olhando sua imagem no espelho fazia um bom tempo o que não fazia com frequência, já que não gostava do que via e ao longo de seus dezoito anos sua aparência aparentava estar pior. Desanimada, encarou sua imagem no espelho. Sou magra demais, alta demais, sou tudo demais, ela pensou. E continuou sua análise no espelho achando seus lábios grandes e carnudos, mas que nem dava para perceber, já que o aparelho que usava a descaracterizava totalmente. Medindo 1,75cm sempre era chamada de “girafa” na escola, já que seu corpo era desproporcional à sua altura. Seus cabelos eram cor de mel, quase louros, e longos com o comprimento até a cintura, mas sempre sem vida. Posso passar o que quiser neles, e ainda assim não ficam bonitos, parecem mais cabelos de espiga de milho, ela concluiu.
Tinha os olhos azuis, mas ficavam sempre escondidos pelo óculos grosso tipo “fundo de garrafa”, que usava desde os dez anos de idade. Porém o que lhe dava mais desgosto e raiva era o aparelho ortodôntico que usava há oito anos e que lhe dava a impressão de que nunca teria os dentes “normais”. O aparelho lhe dava tanto desgosto que tinha vontade de tirar por conta própria. Observando seu nariz um pouco grande e desproporcional ao seu rosto, Clara completou sua análise e chegou à conclusão de sempre. Ela era um desastre no quesito beleza e seu guarda-roupa não ajudava nem um pouco.
Fez uma careta ao olhar para a blusa estampada com flores enormes e de cor berrante que estava vestindo, tinha ganhado ela de sua mãe. E o gosto para roupas da mãe era pior que o dela. Mas como era um presente, Clara fez todo um esforço para dizer que era linda e que tinha adorado. Porém a verdade era que nem ela com todo o seu mau gosto, como suas poucas amigas falavam, conseguiria usar uma roupa dessas. Mas nem toda essa análise negativa sobre sua aparência a faria esquecer o que aconteceu na noite anterior. As lembranças insistiam em permanecer em sua mente tão vivas como se tivessem acontecendo naquele instante e ela recordou os momentos que ocorreram à meia-noite do dia anterior.
Curiosa, Clara estacionou o velho carro do pai, um Fiat Uno branco ano 98, no acostamento de um lado da rua e ficou olhando para a multidão que se aglomerava. Ela não soube dizer ao certo o que deu nela, já que em uma situação dessas com certeza ela passaria direto ou desviaria o caminho, pois não gostava muito de multidões. Principalmente quando era algum tipo de tragédia. É que isso a fazia lembrar uma situação semelhante que havia vivido há dois anos, tempo que ela preferia apagar da memória pra sempre. Foi o pior ano da sua vida e o mais doloroso para os seus pais.
Foi movida por uma curiosidade insana, muito maior que a sua própria vontade, que Clara continuou observando a cena de dentro do carro e percebeu que tinha acontecido um acidente e que havia alguém ferido. Quando constatou tal fato, seu impulso foi de ligar o motor do “seu carrinho” e ir embora para o aconchego do seu quarto e da sua cama, porém a força que a fez ficar ali foi muito mais forte que o medo e a aversão por tragédia. Ela desceu do carro e caminhou para o local que começava a encher cada vez mais de curiosos. Era gente falando de todos os lados e dando sua opinião do ocorrido. Os tons das vozes aumentavam cada vez mais, uns gritavam para que ninguém se aproximasse e nem tocasse no corpo, outros pediam para fazer um cordão ao redor da vítima.
Clara percebeu que alguém já tinha chamado ajuda, pois dava para ouvir de longe o barulho da sirene da ambulância com a equipe de resgate. Movida pela curiosidade ela desceu do carro e se aproximou da multidão para ver o que realmente tinha acontecido ou se poderia ajudar. Afinal, pretendia ser médica e queria ajudar de alguma forma. Foi nesse momento que ela avistou um corpo a alguns metros de distância, perto de um carro Eco Sport preto, que agora se encontrava destruído. Provavelmente o condutor estava sem o cinto de segurança e na hora da colisão com o poste, deve ter sido jogado para fora do veículo, pensou.
Desviou-se da multidão para chegar mais perto do corpo ensanguentado que se encontrava estirado ao chão, com um profundo corte na testa. Deu mais um passo à frente para ter uma visão melhor. Nesse momento, Clara estagnou, o coração gelou e ela não conseguia desviar o olhar da pessoa estirada no asfalto. Desesperou-se sem saber o que fazer e de tão acelerado seu coração parecia que iria saltar pela boca. No seu pensamento uma frase repetia-se insistentemente. Não! Não! Com ele, não!Pensava Clara, desnorteada com aquilo que via.
Ela teve que fazer um grande esforço para continuar em pé, pois sentia uma enorme sensação de que iria desmaiar a qualquer momento. Ao chão, totalmente inerte, estava o garoto que sempre atormentava os sonhos de Clara e alimentava suas fantasias de adolescente. Agora, irreconhecível. Ela ficou ali observando com o coração em pedaços, sem saber o que fazer para socorrer a pessoa que tanto amava. Queria chegar mais perto dele, mas a multidão impedia ela de aproximar-se.
Sentiu as lágrimas caindo livremente pelo seu rosto. E em um gesto de desespero ela se agarrou a todos os santos que conhecia num pedido silencioso de socorro para salvá-lo. Finalmente depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ela ouviu a equipe médica pedindo o afastamento dos curiosos e abrindo caminho para que fossem feitos os primeiros socorros. Com muito esforço, Clara escorou-se em uma jovem que estava ao seu lado e ouviu quando ela disse:
― É. A coisa foi feia! Com certeza ele está morto – ela dizia balançando a cabeça, em um gesto de pena.
Clara teve vontade de sacudi-la pelos ombros e mandá-la calar a boca. Quem era ela para dar esse diagnóstico da pessoa que ela amava? Quem era ela para querer matar seus sonhos? Pensou desesperada. O coração dela dizia que ele iria ficar bem e que logo ele iria acordar. Os médicos pediam para todos que estivessem ali se afastassem, mas ela não conseguia nem se mover, como se estivesse pregada ao chão. Seus olhos estavam fixos nele, no seu corpo imóvel, ali, sem vida. Ela precisava de um sinal para ter certeza se ele estava vivo.
Depois de algum tempo, finalmente ouviu os paramédicos dizendo que ele estava respirando, mas que era necessário que ele fosse retirado dali imediatamente. Aos poucos as pessoas foram se dispersando e abrindo espaço para que os médicos o removessem.
Clara sentiu seus batimentos cardíacos voltarem ao normal ao saber que ele estava vivo e a esperança de que Deus pudesse salvar a vida dele, consolou seu coração. Com muita relutância ela se afastou do local, junto com os demais que estavam ali. E a garota que estava ao seu lado havia sumido. Ela caminhou para o acostamento onde estava seu carro, entrou e ficou esperando a ambulância sair. As lágrimas continuavam a cair pelo seu rosto e já não sabia se eram de alívio por ele ainda estar vivo, ou de temor pelo que poderia acontecer. Sentiu um aperto agudo no peito, medo de nunca mais vê-lo. Agora ela pôde entender a dor que seus pais sentiram quando ela sofreu o acidente. Clara ligou o carro e foi dirigindo bem devagar, com a visão embaçada pelas lágrimas. A imagem de Fred nos corredores do colégio lhe veio à mente e se lembrou do dia em que o viu pela primeira vez.
Fred era um verdadeiro “deus grego”, com um charme irresistível. Ele era o garoto mais bonito que já tinha e não conseguiu desviar o olhar de tamanha beleza. Ele tinha 1.90cm de altura, olhos verdes e cabelos castanhos. Usava um corte de cabelo arrepiado e possuía um corpo atlético, pois praticava esportes radicais e se exercitava com frequência. Desde a primeira vez que o viu, no inicio do segundo ano letivo, com seus dezessete anos, descobriu que estava perdidamente apaixonada. Foi amor à primeira vista. Ele era o sonho de todas as garotas do colégio e a partir dali, passou a ser o seu também.
Segundo os boatos, Fred havia sido transferido de outro colégio, porque a direção não aguentava mais sua rebeldia e indisciplina e, nem mesmo o dinheiro da família conseguiu segurá-lo por lá. Já com 18 anos, estava bem atrasado, assim como ela. Durante quase dois anos, sempre que ela tinha oportunidade, mesmo sabendo que ele nunca dirigiria seu olhar a ela, ficava observando-o sem que ninguém percebesse. Pessoas como ela não existiam pra ele, nem para seus amigos babacas. Mas isso não importava. Clara se contentava só em estar ali olhando seu rosto lindo, apesar de que, pouco se via um sorriso em seus lábios...
Naquela noite do acidente Clara demorou a dormir. Ela ficou se perguntado para qual hospital o tinham levado, e como ele estaria.“Será que iria sobreviver? Ficaria totalmente curado, ou o acidente o deixaria com sequelas?”Estas e outras dúvidas tiraram o seu sono, deixando-a bastante angustiada. Durante toda aquela semana Clara tentou saber notícias sobre ele, mas foi em vão, pois os alunos estavam de férias e só iriam retornar ao colégio dali três semanas. Ela passava horas se perguntando onde e como ele estaria e o seu desespero aumentava ainda mais, por não saber notícias sua e sem poder contar para ninguém o motivo da sua angústia. Seus amigos ficariam surpresos se ela demonstrasse qualquer interesse por ele, já que nunca tocou em seu nome.
A cada dia que passava Clara ficava mais apreensiva, sem saber do seu estado de saúde ou de sua recuperação. Sabia que ainda estava vivo, porque não veio nenhum comunicado do colégio para o seu enterro. Isso era o que ainda a confortava, visto que não tinha nada que ela pudesse fazer, a não ser esperar a volta das aulas para ter notícias dele. Uma semana depois do acidente, em uma sexta-feira, já sem esperanças de saber alguma coisa a seu respeito, Clara estava saindo da ala infantil do hospital onde ela prestava serviço voluntário quando viu os pais de Fred, Sr. Frederico e Dona Emily, saindo da sala do Dr. Henrique, um dos sócios do hospital. Seu coração se encheu de alegria. “Finalmente, eu o encontrei! Ele estava internado ali bem pertinho de mim!” Pensou alegremente e suspirou aliviada. Agora poderia vê-lo e finalmente saber como ele estava. Ficou parada no corredor, um pouco distante da sala do Dr. Henrique, esperando que os pais de Fred se despedissem.
Ela se dirigiu para a sala, assim que os viu passar pelo corredor. Bateu à porta e ficou esperando permissão para entrar.
― Entre! ― Gritou uma voz do outro lado autorizando a entrada dela.
Dr. Henrique olhou para Clara e fez sinal para que ela aguardasse um instante, pois estava ao telefone. Clara aproveitou esse instante para se acalmar, não queria deixar transparecer sua ansiedade. Aproveitou o tempo para observar a sala que apesar de ter uma decoração um pouco mais sofisticada, era semelhante às salas dos demais médicos. Para Clara mesmo que fosse como voluntário era um grande prazer trabalhar naquele hospital, um dos mais importantes da cidade. Sentia-se orgulhosa de fazer parte desse lugar onde abrigava, acolhia e tratava as dores, as aflições e também as alegrias de tanta gente. Dr. Henrique era um dos donos do hospital. Com 65 anos e uma vida dedicada à medicina, era um grande ser humano, homem feliz, que exercia sua profissão com amor e dedicação, qualidade esta, percebida por todos.
Clara voltou sua atenção para o Dr. Henrique, que havia terminado a ligação.
― Posso falar com o senhor um instante?- perguntou ela.
― Tudo bem Clara? ― ele perguntou e estendeu a mão para cumprimentá-la com um sorriso caloroso e confiante.
― Sim, estou bem. ― Ela respondeu com sorriso tímido. Eram raras às vezes em que ela ficava a sós com ele e, quando isso acontecia, era mais na base do “olá, tudo bem?”, esse tipo de coisa. Nada de portas fechadas como agora.
― Como vão as nossas crianças? - Dr. Henrique perguntou.
Para ele Clara sempre foi uma garota especial e muito caridosa para sua idade. Ele achava que hoje em dia os jovens não queriam saber muito de ajudar as pessoas, principalmente crianças enfermas. Mas ela era uma exceção diante de uma juventude egoísta e individualista. Com certeza era um orgulho para seus pais e de uma grande ajuda aqui para o hospital.
― Elas vão bem, doutor. Acabo de sair de lá.- Clara respondeu.
― Ótimo! Fico muito contente. Não sabe a importância que o seu trabalho tem para essas crianças e como o seu amor e sua dedicação ajudam na recuperação delas. - Dr. Henrique respondeu num gesto de agradecimento.
― Obrigada, doutor. Faço isso porque gosto, e me sinto bem em ajudá-las.
― Sei disso Clara, e fico muito feliz por sua ajuda. Mas, em que posso lhe ajudar minha querida?
― Vi quando os pais do Fred saíram. ― Clara falou cruzando as mãos nervosas no colo.
― Você o conhece? ― Dr. Henrique perguntou-lhe, estranhando seu interesse por Fred.
― Sim. Estudamos no mesmo colégio.
― Ah... Sei...
― Ele está internado aqui?
― Está sim. ― Dr. Henrique confirmou.
― E como ele está doutor? ― Clara perguntou, se ajeitando melhor na cadeira para disfarçar sua ansiedade.
― Clinicamente está se recuperando bem, mas ainda não saiu do coma. Está na Unidade de Terapia Intensiva, ainda sob os efeitos dos remédios. :
― Posso vê-lo, Dr. Henrique? – Perguntou Clara sem conseguir se conter.
― Sim, claro! Não vejo problema quanto a isso, apenas não demore muito. O estado dele requer descanso.
― Tudo bem. Eu entendo o que o senhor quer dizer, e não vou me demorar, prometo. E obrigada por me deixar vê-lo. – Clara agradeceu com um sorriso tímido.
― Sem problema – disse Dr. Henrique, com um leve sorriso, levantando-se da cadeira. ― Vou chamar uma enfermeira para lhe acompanhar até o quarto onde ele se encontra.
― Ok. Obrigada. - Clara concordou acenando com a cabeça e se despediu do Dr. Henrique com o coração cheio de alegria.
Do lado de fora já havia uma enfermeira esperando por ela e juntas caminham em silêncio até o quarto de Fred. O coração de Clara estava prestes a sair pela boca de tanta ansiedade, queria tanto estar perto dele que estava quase correndo para chegar mais depressa. Com um sorriso simpático a enfermeira abriu a porta ao chegarem no quarto onde ele estava.
Fred estava deitado numa das camas, cheio de aparelhos e um tubo para respirar. Ela só podia vê-lo do lado de fora das enormes janelas de vidro. Mas o quarto era tão pequeno que só dava para fica lá dentro, no máximo duas pessoas e o paciente. Mas, para ela isso não importava só o fato de estar ali e vê-lo, já lhe fazia imensamente feliz. Depois da atormentada semana que tinha passado, não poderia ter acontecido coisa melhor. Clara encostou a testa no vidro e ficou olhando seu corpo imóvel, todo enfaixado, inchado em algumas partes, mas que agora estava limpo, sem aquele sangue horrível como na noite do acidente. Deitado em sua cama, indefeso e inocente, rodeado de aparelhos, Fred tinha um curativo no olho direito, que cobria totalmente o lado do rosto. Sentiu um aperto no peito e o coração ficou pequenino ao vê-lo assim. Ela ficou por um bom tempo ali, rezando baixinho, pedindo a Deus para curá-lo, levantá-lo daquela cama, tirá-lo do estado em que se encontrava. Era só o que ela poderia fazer naquele momento.
No dia seguinte Clara foi para o hospital com um novo ânimo, pois sabia que tinha mais um motivo para estar lá, além das suas adoráveis crianças. Trabalhar como voluntária no hospital foi o que a motivou a escolher prestar vestibular para medicina. Ia ao hospital duas vezes por semana, há pouco mais de dois anos e, durante todos esses anos, nunca se sentiu tão feliz como agora. Lá estava ela novamente, olhando-o através da janela de vidro. Fred continuava no mesmo estado, só algumas ataduras tinham sido tiradas... Olhando de onde ela estava, parecia que ele estava dormindo profundamente.
O Dr. Henrique estava examinando-o já algum tempo e ao terminar, fez um sinal para que ela entrasse na divisória. Clara colocou a máscara e silenciosamente entrou e ficou em pé, ao lado de sua cama. Era a primeira vez em que ficava tão perto dele e esse momento a emocionou, mesmo diante das circunstâncias em que se encontrava, era algo que sempre desejou: Estar assim tão pertinho dele e poder tocá-lo... Clara segurou-se com muito esforço para conter o impulso de fazer o que seu coração pedia, quando de repente, interrompendo seu pensamento, Dr. Henrique fez um pedido em um tom baixinho:
― Converse um pouco com ele, Clara.
Ela olhou pra ele com os olhos arregalados de surpresa, parecia que ele sabia exatamente o que ela estava pensando naquele momento.
― Posso? ― Clara sussurrou. Ele sorriu e respondeu:
― Pode sim.
― Vai ser bom ele ouvir a voz de outra pessoa que não seja da equipe médica e dos seus pais.
― E ele pode me ouvir? ― perguntou baixinho.
― Quem sabe... ― respondeu ele e, fazendo uma expressão com ar de mistério, saiu da sala, não sem antes alertar para que não me demorasse.
Fazendo um sinal afirmativo com a cabeça, ela se sentou numa cadeira que estava próxima à cama e ficou em silêncio só observando. Depois de algum tempo olhando-o, pensou no que poderia falar para uma pessoa naquele seu estado, sem saber se ele a ouvia ou não. “O que dizer para a pessoa por quem estou perdidamente apaixonada?” pensou Clara. Depois de lutar com um turbilhão de emoções que se passava no seu coração, resolveu iniciar a conversa. Apesar do seu nervosismo, tentou passar o máximo de calma possível na voz enquanto falava. Começou contando todas as novidades sobre o colégio e seus amigos, para que, caso ele estivesse ouvindo, tivesse motivos para se alegrar. Estar ao seu lado nesse momento, para ela era algo que nunca sonhou ser possível e que jamais teria acontecido se o Fred não estivesse nesta cama de hospital, e que possivelmente não voltará a acontecer quando ele sair dali.
Dentro do seu coração passavam muitas emoções, chegava a ser difícil descrevê-las: medo, ansiedade, alegria, desejo... Emoções inexplicáveis e assustadoras para uma jovem de 18 anos, que sempre suspirava toda vez que via Fred, ou ouvia sua voz pelos corredores do colégio. “Queria muito que ele pudesse ler meus pensamentos agora, e descobrir o que carrego dentro de mim desde que o conheci. Que pudesse saber do desejo imenso que tenho dentro do peito... desejo de tocá-lo, de senti-lo, de ouvir sua voz. Que ele pudesse sentir as batidas do meu coração.” “Oh, meu Deus! Como eu o amo!” Ela pensou. Naquele momento, eram somente os dois ali. Mesmo ele não podendo vê-la, e nem sentir seu toque, ou ouvir sua voz. Mas eram somente eles dois. Precisava aproveitar cada instante ao seu lado, porque não teria outra oportunidade como essa para estar tão próxima dele.
Continuou conversando com ele, queria que ele sentisse sua presença, mesmo que ele nunca viesse a descobrir que ela estivera ali. Clara sempre achou que o amor não era pra ela, mesmo fazendo o “tipo” romântica incurável, daquelas que chora no final dos filmes e torce pela heroína no fim das histórias de livros de romance. “O que sinto pelo Fred jamais terá um final feliz, nunca será para sempre como nos romances” Pensou, com um suspiro desanimado. Olhou para o relógio e viu que havia passado quase duas horas. Precisava ir embora antes que alguém pedisse para que ela saísse. Mesmo que passasse horas ali, não seria o bastante. Quando se ama e se está perto da pessoa amada, nunca é o suficiente. Sempre se quer mais e mais. E era isso que ela queria: permanecer ao seu lado para sempre.
Ela suspirou... Levantou-se da cadeira onde estava sentada ao lado dele. Não sem antes deixar de contemplar seu semblante adormecido. Sabia que ela poderia voltar quando quisesse e que, enquanto Fred permanecesse inconsciente, ele seria só dela. Depois que ele saísse do coma, só o tempo poderia dizer. Da sua parte, tinha plena certeza que seus caminhos nunca mais se cruzariam. Era o último ano no colégio. Todos seguiriam rumos diferentes. E foi assim, que ela o deixou com a promessa de retornar na próxima semana. Mesmo ele não podendo ouvi-la, prometeu que voltaria a vê-lo novamente.
